O ENFORCADO

Trago nas mãos as notas de uma lira despedaçada. É a música dos loucos dedilhando saudades e sonhos perdidos. Reviro o mundo pelo avesso, pendurado sob o céu e amarrado a pedras para não despencar em queda alada. Deixo as ruinas para alcançar os corpos invisíveis de um tempo impreciso, sufocando sonhos, criando outros, num pêndulo invertido. Sendo, sou minha aparencia em pólos inconsiliáveis. Sendo, desmancho verdades e construo devires. Bem vindo ao (des)mundo do (in)verso.

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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
 
SÃO PAULO DESOLADA - último dia

Como TU, minha irmã, preparo minha bagagem
carregando dias ambíguos, de companhia e silêncio,
cheios de sentimentos sinceros de confusão e desejo
de continuar num mundo sem rotina, anônimo e sem voz
na garoa, nas brisas, nas facas no escorredor de pratos.

Neste eu desterritorializado, neste eu sem rumo, vago,
carrego o sentimento-amor, água represada, que o afago
- às vezes insípido ou resistente, por falta de mim mesmo -
na materialização das lágrimas que fluem em rio (a)dentro
no patinar entre ilusões e espaços sem matéria alguma.

Sou de sua carne, em combinação binária ligeiramente outra
mas sou sua poesia, da boca emergindo renovada, num susto.
Não sei ser guia em terra de ilusões cambiantes, água(rdendo)
mas misturo semestes, numa amalgama, chumbo e ouro
pedindo aos deuses que não me deixem sentir sozinho.

MEU adeus ao caos, no saudosismo prévio de TI.
Amor sereno a afagos entre irmãos.

(L. F. Calaça | 23/02/2007)


Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
 
SÃO PAULO INCENDIADA - terceiro dia

Serras gritam sobre o metal vermelho faísca
deste meu canto alto, riscando o céu com nuvens rotas
trago o sol da terra trêmula, da carne transmigrada
sou estrangeiro, carregando tochas e poesia.

Altas torres, formigas caminhando em calçadas largas
no passo sem olhos, sem órgãos, no cinza verdeado, pára-raios
e os trovões no meu peito, sangue congelado nas artérias de alsfalto
e o metrô correndo, entubado, nas entranhas negras de concreto.

Não vi pássaros, mas elefantes, E pessoas com sotaques
que latejam na dor dos póros alucinógenos nipo-austro-coreanos
e deglutinam os fusos, os parafusos, as sindicâncias alamedas.
quero acordar como um feto, noite entreaberta, corpos-pasto.

(L. F. Calaça | 15/02/2007)